domingo, 15 de julho de 2012

Reeleição não é conceito absoluto, diz Michel Temer.


Apesar de elogiar o desempenho da presidente Dilma Rousseff, o vice-presidente Michel Temer, principal líder do PMDB, disse que se criou a ideia de que todo governante tem de se candidatar à reeleição, "mas esse não é um conceito absoluto".

Segundo ele, "tudo" está em jogo nas próximas eleições presidenciais. "Quem foi bem deve se reeleger. Agora, o que vai acontecer em 2014 está ainda muito distante."

Em entrevista à Folha, na última quarta-feira, em seu gabinete, Temer também mandou um recado indireto ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB, cujos movimentos sugerem uma corrida ou à vice ou à Presidência em 2014: "O apressado come cru".
            Zanone Fraissat - 28.jun.12/Folhapress  
O vice-presidente Michel Temer (PMDB) durante lançamento de livro ocorrido em São Paulo em junho
O vice-presidente Michel Temer (PMDB) durante lançamento de livro ocorrido em São Paulo em junho

Folha - Por que, enquanto o PT e o PSB estão às turras em Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, o PMDB anda tão calado?

Michel Temer - Acho melhor agir do que falar e, na qualidade de vice-presidente, eu tenho de ser discreto, mas essa discrição não significa uma inação política.

O melhor exemplo é Belo Horizonte?

É. Contribuímos muitíssimo para a solução em Belo Horizonte, que é muito importante para o PT. Eu percebi, aliás todos nós do PMDB, inclusive o candidato Leonardo Quintão, percebemos, que deveríamos abrir mão da candidatura própria, que tinha muito significado e peso eleitoral, para fazer a aliança sólida com o PT. Uma aliança com repercussão nacional.

Para neutralizar os arroubos do PSB e do governador Eduardo Campos?

O PSB tem um papel a desempenhar no Brasil e no apoio importantíssimo que dá ao governo e acho natural que busque ampliar seu raio de ação, especialmente nas eleições municipais. Veja o PMDB: é um partido forte, significativo, pelo número de governadores, prefeitos, vereadores, por ter a maior bancada na Câmara e no Senado.

A disputa do PSB com o PT nas eleições municipais é parte do jogo de 2014 e de 2018?

Disputas locais não podem contaminar a aliança nacional. Isso precisa ficar claro.

Quando Dilma reuniu líderes de PT e PSB, dois de cada lado, as orelhas do PMDB arderam?

Se arderam, foi do lado direito, porque, quando é do lado direito, dizem que é porque falaram bem. Suponho que PT e PSB, juntos, só podem ter falado bem do PMDB.

O sr. tem certeza?

Tenho. O PMDB colabora muito com o governo e com essa aliança. Então, se se reuniram PT e PSB, eu tenho cá comigo, talvez com uma certa ingenuidade, eles só podem ter falado bem do PMDB.

E se não?

Problema deles, porque o PMDB é um partido que tem vida própria, significação política histórica.

Ao sair do encontro com o PT e Dilma, Eduardo Campos disse que querem inventar um "inimigo oculto" só para obterem favores fisiológicos da presidente. Todo mundo entendeu que falava do PMDB.

Pois o PMDB entendeu que o governador só poderia estar falando de outro partido porque, para nós, essa história de fisiologia está superada.

Nesses governos de coalizão, é mais do que natural que os partidos participem do governo. Veja aí, PT, PSB, PMDB, todos participam. E, comparada numericamente com os outros partidos, a participação do PMDB é a menor.

Já que Campos falou genericamente sobre "fisiológicos", vamos falar também em tese: tem gente na aliança botando o carro à frente dos bois?

Cada um tem seu estilo. Eu acho que, em política, é preciso administrar o tempo, porque quem se apressa acaba se dando mal. O apressado come cru. A afoiteza e, mais do que a afoiteza, as palavras duras e deselegantes, acabam gerando um clima muito desfavorável para as instituições. Numa democracia, as instituições --e os partidos são instituições-- deverão ser sempre preservadas.

Isso tudo é recado para Eduardo Campos?

Não... o Eduardo Campos sabe muito mais do que eu.

Como o sr. vê o embate do PSB com o PT?

Todas as notícias eram de que as queixas do PSB eram contra o PT. Depois de umas conversas é que, veladamente, começaram a dizer que a relação com o PT era boa e o problema era com os outros. Como esses outros eram indefinidos, você tem de ignorar.

O PSB recuou de atacar o PT e se virou contra o PMDB?

Sabe que eu acho que não? Até porque todas as conversas do Eduardo Campos comigo e com todos do PMDB são sempre de parceria. Então, não vejo clima de beligerância, pelo menos nas manifestações dele.

Quem estaria, então, criando esse tal inimigo oculto do PSB e do PT?

Confesso que não sei dizer. É preciso perguntar ao próprio Eduardo Campos. Aliás, seria útil, até, que houvesse uma definição, porque essa coisa, digamos, muito insinuante, em matéria política, não é nada bom.

Fala-se muito que o que está por trás é a Presidência em 2014, mas não seria a Vice?

O que está em jogo é tudo em 2014! Primeiro ponto é que, depois de instituída a reeleição no Brasil, a ideia é a seguinte: quem foi eleito tem de concorrer à reeleição, para não perder o poder. Estabeleceu-se esse conceito que não é um conceito absoluto.
Segundo ponto é que, havendo a reeleição, quem foi bem no governo deve se reeleger. Agora, o que vai acontecer em 2014 está ainda muito distante. Quem está pensando só em 2014 está sendo afoito, apressado. E, aí, come cru.

Tem muita gente com inveja do PMDB e da vaga de vice?

Ser vice-presidente, em especial na atual conjuntura, tendo como companheira a presidente Dilma, é uma coisa muito boa, produtiva institucionalmente. É natural, portanto, que haja inveja, mas é um sentimento negativo. Ela se volta contra o invejoso. As pessoas devem é trabalhar de uma maneira que as habilite a ocupar os lugares, seja de vice, seja de presidente.

A disputa do PSB com o PT fortalece o PMDB?

O PMDB já está fortalecido. A grande preocupação que existe em torno do PMDB já revela sua força. Se você me perguntar se há divergências internas no PMDB, eu vou dizer: há. Mas nós sabemos administrar essas divergências.

Como o sr. se posiciona diante da resistência de Dilma aos nomes de Henrique Eduardo Alves à presidência da Câmara dos Deputados e de Renan Calheiros e Romero Jucá para a do Senado?

Posso assegurar que não há isso, até porque no Senado é regimental, a presidência cabe ao maior partido, e, na Câmara, há até um documento assinado por PT e PMDB estabelecendo que a presidência será do PMDB no próximo biênio.

Dizer que a presidente Dilma não quer o Henrique é equivocado. Ela jamais me disse isso.

Foi isso que o sr. acertou com Dilma e o presidente do PT, Rui Falcão, na terça-feira?

A presidente me chamou para fazer uma avaliação geral do quadro, só isso.

Se o sr. fosse de outro partido e presidente, acharia conveniente ter o PMDB no comando das duas Casas?

Acharia, em face da lealdade do PMDB. Quando Sarney presidiu o Senado e eu presidi a Câmara, foram tempos de muita tranquilidade para o presidente Lula.

Haverá reações no PMDB se Dilma tentar impor o ministro Edison Lobão para o Senado?

Quanto à presidente ter uma ou outra preferência, é mais do que legítimo, não caracteriza interferência, mas quem decide é o Poder Legislativo.

Campos disse que Lula está acima dos partidos e não deveria entrar na campanha. Obviamente, um pedido para o ex-presidente não entrar na campanha do PT em Recife. O que o sr. acha?

Em São Paulo, seria muito útil para o [Gabriel] Chalita [candidato do PMDB] que ele não entrasse, mas não acredito nisso.


ELIANE CATANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA


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